Quando os vidros se
desfazem num estalido, vejo os teus gatos azuis a brincarem na margem de um rio
com pedrinhas envernizadas. E, ao lado deles, malhas perdidas de uma camisola de
lã enjoada da viagem.
martes, diciembre 27, 2005
domingo, diciembre 04, 2005
sábado, noviembre 26, 2005
não sou
Sou o sorriso infantil da minha mãe e a perspicácia do meu pai. Sou a lembrança da minha avó à lareira a mexer no lume. Sou os recortes que fiz, os desenhos que picotei e os calções que vesti contra a minha vontade. Sou todas as caras para as quais olhei e me fizeram pensar; sou todas as pessoas que beijei e todos os corpos em que toquei. Sou a lama que me ensopou os pés. Sou todos os passos que dei, todas as ruas que percorri e sou o buraco nas minhas botas causado por esses percursos. Sou todos os prédios que vi a delimitarem o céu. Sou todas as águas em que mergulhei e todos os punhados de areia que tentei prender. Sou todos os baloiços onde me ri e onde tive medo de rodar trezentos e sessenta graus. Sou todos os vidros que me fizeram sangrar e todos os dedos que me ofereceram hematomas. Sou cada gota de água que consumo. Sou a bola onde repouso e o chão onde divago. Sou todas as palavras que me cuspiram; todos os “sins” e “nãos” que me responderam. Sou todas as notas musicais que me embalaram. Sou todos os livros que li, todos os filmes que vi e todas as imagens que decorei. Sou as luzes que se apagam quando eu não quero. Sou as conversas que aguento com desprezo. Sou o cansaço da falta de sono. Sou todos os ódios que guardo.
E, mais do que tudo isto, sou as alucinações que me atormentam. Sou todas as pessoas que não vi; todas aquelas com quem não falei; sou todas as peles que desconheço. Sou todos os gemidos de angústia que não dei, sou todas as gargalhadas que não berrei. Sou as grutas onde não estive, as tribos com quem nunca manterei contacto. Sou os meus sonhos sem nexo e as minhas mentiras. Sou as conversas reveladoras à beira de uma falésia e os passeios de carro com o porta-bagagens recheado de gin e o rádio a gritar um dueto entre o Jello Biafra e a Patti Smith. Sou o sangue que tu não lambeste. Sou todos os meus medos e insuficiências. Sou o arrastamento. Sou a idiotice.
E, mais do que tudo isto, sou as alucinações que me atormentam. Sou todas as pessoas que não vi; todas aquelas com quem não falei; sou todas as peles que desconheço. Sou todos os gemidos de angústia que não dei, sou todas as gargalhadas que não berrei. Sou as grutas onde não estive, as tribos com quem nunca manterei contacto. Sou os meus sonhos sem nexo e as minhas mentiras. Sou as conversas reveladoras à beira de uma falésia e os passeios de carro com o porta-bagagens recheado de gin e o rádio a gritar um dueto entre o Jello Biafra e a Patti Smith. Sou o sangue que tu não lambeste. Sou todos os meus medos e insuficiências. Sou o arrastamento. Sou a idiotice.
miércoles, noviembre 23, 2005
Era o meu espaço. Era a minha gruta acolhedora, a minha pista de dança, a minha pista de manobras contorcionistas, a minha poça de suor trabalhador, o meu recolhimento, a minha montra para o mundo, sem que o mundo me visse. Era um local de alucinação, subversão e inspiração.
Tu chegaste, pediste licença para entrar. Disse-te que podias escolher a música e que também podias dançar em cima das carpetes preta e vermelha. Ofereci-te Gin. Sentaste-te no meu sofá favorito a deliciar-te com ele.
Acabaste por passar lá a noite, depois de copos, de fumos, de mãos, de cortes, de escritos disconexos e de muitas gargalhadas abafadas.
Na noite seguinte, permanecemos lá. E mais uma noite sem dormir.
Trouxeste um cinzeiro, por achares a garrafa de plástico nojenta. Lavaste a loiça, limpaste toda a porcaria que tinhamos feito e agarraste na minha mão para colocar o cadeado.
Quando se prepara uma refeição, se lava o que se sujou, se se descalça para se se acomodar no sofá, encaixando-se entre o sofá e eu, se brinca com os objectos, mudando-os de lugar...o espaço passa a ser nosso. E, assim, entrego-te um sentimento de possessão perante o que era tão intimamente meu.
Tu chegaste, pediste licença para entrar. Disse-te que podias escolher a música e que também podias dançar em cima das carpetes preta e vermelha. Ofereci-te Gin. Sentaste-te no meu sofá favorito a deliciar-te com ele.
Acabaste por passar lá a noite, depois de copos, de fumos, de mãos, de cortes, de escritos disconexos e de muitas gargalhadas abafadas.
Na noite seguinte, permanecemos lá. E mais uma noite sem dormir.
Trouxeste um cinzeiro, por achares a garrafa de plástico nojenta. Lavaste a loiça, limpaste toda a porcaria que tinhamos feito e agarraste na minha mão para colocar o cadeado.
Quando se prepara uma refeição, se lava o que se sujou, se se descalça para se se acomodar no sofá, encaixando-se entre o sofá e eu, se brinca com os objectos, mudando-os de lugar...o espaço passa a ser nosso. E, assim, entrego-te um sentimento de possessão perante o que era tão intimamente meu.
lunes, noviembre 21, 2005
Eles acham que a vida lhes deve uma vida. Eles acham que o mundo inteiro lhes deve histórias, memórias, vivências e experiências. Protegem-se de estarem vivos, não vivendo. E anseiam por memórias de aventuras alucinantes.
domingo, septiembre 25, 2005
Saudades de quem chegaste a ser.
Um dia, vou chegar e dizer-te que não, que dessa forma o ponto final ganha volume. Nesse dia, vou viver para sempre. E nessa noite, vou ter um dia de interminável sanidade.
Tiveste todo o tempo, o tempo inteirinho nas tuas mãos enjaulado pelos teus dedos quase tão habilidosos quanto aqueles que sabem o nome de todas as cartilagens e glândulas. Tiveste tudo. Tudo ao teu alcance.
Agora dou as boas vidas à racionalidade e digo “foi assim”.
digo
- foi assim
Vês? Já sei contar.
De três, para dois, para um e um só, para zero e uma esperança.
Um dia, vou chegar e dizer-te que não, que dessa forma o ponto final ganha volume. Nesse dia, vou viver para sempre. E nessa noite, vou ter um dia de interminável sanidade.
Tiveste todo o tempo, o tempo inteirinho nas tuas mãos enjaulado pelos teus dedos quase tão habilidosos quanto aqueles que sabem o nome de todas as cartilagens e glândulas. Tiveste tudo. Tudo ao teu alcance.
Agora dou as boas vidas à racionalidade e digo “foi assim”.
digo
- foi assim
Vês? Já sei contar.
De três, para dois, para um e um só, para zero e uma esperança.
miércoles, agosto 24, 2005

Cheguei.
19 anos, sexo feminino, idade aparente coincide com idade real, mas é superior a idade mental. orientada no espaço, desorientada no tempo, alo e heteropsiquicamente, memória demasiadamente conservada, contacto adequado, sintónico embora retraído, com dificuldade em verbalizar o motivo da visita a este espaço.
lunes, mayo 09, 2005
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lunes, abril 25, 2005
Esqueci-me de apagar a luz quando corri para a falésia escarpada do teu esquecimento.
(não gosto, tenho medo)
Espezinhei insectos sem notar que eles se desfaziam em líquidos verdes.
(desculpem, não reparei)
Dantes, o amor era verde e berrava em notas afinadas mas incómodas.
(a minha mãe não acredita que elas me fazem esmagar o meu próprio crânio contra a parede)
O volume dos rios aumentou e eu não te encontrei.
(vives mais que qualquer farsa)
Andaste em cima dos meus pés enquanto derrubavas retratos.
(sabes que adoro a tua irritação com as palavras pequeninas)
Posso agrafar estradas e coser edifícios, mas não sei se me entretém.
(não há rostos a espreitar atrás das portas)
(não gosto, tenho medo)
Espezinhei insectos sem notar que eles se desfaziam em líquidos verdes.
(desculpem, não reparei)
Dantes, o amor era verde e berrava em notas afinadas mas incómodas.
(a minha mãe não acredita que elas me fazem esmagar o meu próprio crânio contra a parede)
O volume dos rios aumentou e eu não te encontrei.
(vives mais que qualquer farsa)
Andaste em cima dos meus pés enquanto derrubavas retratos.
(sabes que adoro a tua irritação com as palavras pequeninas)
Posso agrafar estradas e coser edifícios, mas não sei se me entretém.
(não há rostos a espreitar atrás das portas)
lunes, abril 04, 2005
era uma vez um homem
Era uma vez um anarco-sindicalista: um homem que gostava de ficar a olhar para um globo que lhe fora oferecido pelo Reader’s Digest made in America. À noite, enquanto os bocejos a seu lado se tornavam cada vez mais frequentes até se apagarem num sono silencioso, esse homem ficava a olhar para o globo e a pensar no desequilíbrio entre o espaço e as oportunidades. Esse homem era um artista, um racionalista e um intelectual. Intelectual com aversão à linguagem repenicada, com aversão ao padrão pretensioso de quem se julga maior. Um amante da arte que exaltava o sangue, o sexo, a merda e o calão provinciano. Um tímido desbocado.
Era uma vez um homem que, por se recusar a pagar umas letras bonitas impressas num tecido, se vestia em multinacionais desvalorizadas – “é o mais prático”, dizia. Recusava dar esse dinheiro a si, mas entregava-o aos bocejos que musicavam as suas viagens, “porque os ténis que dão luz são mais bonitos”.
E esse anarco-sindicalista trabalhava para meninos ricos. Olhava para eles com uma dose de esperança e desvalor. Entregava-lhes toda a inspiração que podia para que eles fossem melhores que ele sem, no entanto, acreditar nos seus sucessos. Saía da sala de trabalho em passo rápido com a sua mochila às costas e fitando o chão, para não ver ninguém, para não ter de lhes falar.
Um crítico exímio. Um homem reconhecido. Um júri de concursos. Um conhecedor dos espaços, por os presenciar, por se aventurar até eles.
E esse anarco-sindicalista vivia encantado com os pormenores do ser humano. Ria-se da queda dos pseudo-elevados. Como se ria...! Espezinhava a pirosice, a hipocrisia e a mediocridade com toda a ironia que conseguia. Era grande.
É grande! É a minha inspiração.
Era uma vez um homem que, por se recusar a pagar umas letras bonitas impressas num tecido, se vestia em multinacionais desvalorizadas – “é o mais prático”, dizia. Recusava dar esse dinheiro a si, mas entregava-o aos bocejos que musicavam as suas viagens, “porque os ténis que dão luz são mais bonitos”.
E esse anarco-sindicalista trabalhava para meninos ricos. Olhava para eles com uma dose de esperança e desvalor. Entregava-lhes toda a inspiração que podia para que eles fossem melhores que ele sem, no entanto, acreditar nos seus sucessos. Saía da sala de trabalho em passo rápido com a sua mochila às costas e fitando o chão, para não ver ninguém, para não ter de lhes falar.
Um crítico exímio. Um homem reconhecido. Um júri de concursos. Um conhecedor dos espaços, por os presenciar, por se aventurar até eles.
E esse anarco-sindicalista vivia encantado com os pormenores do ser humano. Ria-se da queda dos pseudo-elevados. Como se ria...! Espezinhava a pirosice, a hipocrisia e a mediocridade com toda a ironia que conseguia. Era grande.
É grande! É a minha inspiração.
nasci morta
Perdi parte da memória dos meus cem anos vividos. E vivê-los não foi só estar aqui a olhar para todas as coisas que estão ali; não foi existir sem mais nada. Não abri os olhos todos os dias, não falei às coisas todos os dias (às vezes as palavras perdem-se na minha língua e escondem-se nos espaços entre os meus dentes), não corri para lhes tocar todos os dias, mas sei que estava a fazer mais do que existir; eu era! O que interessa isso agora? Não sei o que são todas as coisas, não conheço mais todos os dias.
Às vezes as palavras perdem-se na minha língua e escondem-se nos espaços entre os meus dentes.
A memória tem medo de ter medo e, a fim de o evitar, apaga-se, esquecendo-se que existe.
Às vezes eu quero ser o corpo que embrulha a memória, às vezes esqueço-me que existi.
Nasci morta. Mesmo sem toda a memória que me era merecida, sei que nasci morta. Sei que vivo para viver. Sei que não me estou a gastar até encontrar um dia que seja mais curto que todos os outros. Sei que me prolongo por um caminho desnivelado até ao dia mais comprido que há memória.
Nasci morta. E não me assusta.
Às vezes as palavras perdem-se na minha língua e escondem-se nos espaços entre os meus dentes.
A memória tem medo de ter medo e, a fim de o evitar, apaga-se, esquecendo-se que existe.
Às vezes eu quero ser o corpo que embrulha a memória, às vezes esqueço-me que existi.
Nasci morta. Mesmo sem toda a memória que me era merecida, sei que nasci morta. Sei que vivo para viver. Sei que não me estou a gastar até encontrar um dia que seja mais curto que todos os outros. Sei que me prolongo por um caminho desnivelado até ao dia mais comprido que há memória.
Nasci morta. E não me assusta.
viernes, marzo 25, 2005
"como lapas difusas num amontoado erótico
representámos o nosso drama de abandono."
lembras-te quando o amontoado se tornou num hábito confortável?
lembras-te quando te disse que o conforto se deve evitar?
lembras-te de quando te disse adeus.
-olá
tempos mais tarde
-olá
estendes-me os braços, dizes
-ainda aguentariam o desconforto do meu sangue
-acredito que preferisses roubar-me o meu sangue ao meu corpo, à minha despedida
sorris quando não queres sorrir. continuas com o teu primeiro sorriso, sabes? sorrio, quando tu
-eu sei que só o fazes a quem gostas. o teu adeus é igual ao primeiro olá. levo-te a casa.
a tua falta de vingança esmaga-me numa combustão de conforto.
(devemos evitar o conforto, lembra-te)
o teu silêncio sempre foi igual à ponta dos teus dedos.
interrompes
-tiveste medo de perceber que eu te conhecia
interrompes
-não foi o conforto, não foi o hábito, não foi a tua colecção de pessoas, foi só o teu medo de oferecer algo tão verdadeiro que te possa tornar frágil, algo por onde se possa pegar. tiveste medo que dissecasse a tua ferida, que a abrisse, a deixasse exposta aos parasitas e esta não sarasse mais. não percebes que fugir e fechar os olhos não a desinfecta.
-não penses que me...
falas por cima, em tom baixo mas tão mais audível que a minha voz
-"não penses que me conheces". não és assim tão impenetrável. eu sei disso e, por isso, te foste embora. nunca percebeste que te queria ali porque gostava dessa tua infecção, nunca percebeste que te queria ajudar a torná-la numa cicatriz bonita.
-sim, senhor-sabe-tudo, agora deixa-te de lamechices. a minha casa é à direita.
viras à esquerda
-eu sei
(...)
horas e amontoados mais tarde abanas-me e dizes
-levo-te a casa
direita.
dizes
-obrigado. continua a saber bem. 1-1
esmago a porta com as minhas costas
-vai-te foder! a ti e às tuas certezas.
quase que te oiço rir.
representámos o nosso drama de abandono."
lembras-te quando o amontoado se tornou num hábito confortável?
lembras-te quando te disse que o conforto se deve evitar?
lembras-te de quando te disse adeus.
-olá
tempos mais tarde
-olá
estendes-me os braços, dizes
-ainda aguentariam o desconforto do meu sangue
-acredito que preferisses roubar-me o meu sangue ao meu corpo, à minha despedida
sorris quando não queres sorrir. continuas com o teu primeiro sorriso, sabes? sorrio, quando tu
-eu sei que só o fazes a quem gostas. o teu adeus é igual ao primeiro olá. levo-te a casa.
a tua falta de vingança esmaga-me numa combustão de conforto.
(devemos evitar o conforto, lembra-te)
o teu silêncio sempre foi igual à ponta dos teus dedos.
interrompes
-tiveste medo de perceber que eu te conhecia
interrompes
-não foi o conforto, não foi o hábito, não foi a tua colecção de pessoas, foi só o teu medo de oferecer algo tão verdadeiro que te possa tornar frágil, algo por onde se possa pegar. tiveste medo que dissecasse a tua ferida, que a abrisse, a deixasse exposta aos parasitas e esta não sarasse mais. não percebes que fugir e fechar os olhos não a desinfecta.
-não penses que me...
falas por cima, em tom baixo mas tão mais audível que a minha voz
-"não penses que me conheces". não és assim tão impenetrável. eu sei disso e, por isso, te foste embora. nunca percebeste que te queria ali porque gostava dessa tua infecção, nunca percebeste que te queria ajudar a torná-la numa cicatriz bonita.
-sim, senhor-sabe-tudo, agora deixa-te de lamechices. a minha casa é à direita.
viras à esquerda
-eu sei
(...)
horas e amontoados mais tarde abanas-me e dizes
-levo-te a casa
direita.
dizes
-obrigado. continua a saber bem. 1-1
esmago a porta com as minhas costas
-vai-te foder! a ti e às tuas certezas.
quase que te oiço rir.
chamavam-lhe o sítio do escape
Os passos atrapalhados ao se enlearem no cansaço de noites mal apagadas. Ou a vontade. A vontade de andar até à fuga, a vontade de ter destino e a segurança da expansividade a deixar-se prender nas vedações metálicas das tentativas que se sabem, de antemão, falhadas.
E o que escrevo sem escrever: o que penso a ser cortado numa ida só, por carros arrogantes.
Os dois pedaços da palavra pensada voltam a reunir-se sem deixar cicatriz.
Devia correr. Devia correr para lá dos limites da falésia, para lá de toda a ressonância da espuma. Correr correr até que o fôlego se pudesse sentar nas ruelas da segurança. Correr para ter um destino. Correr para que me vejam correr sem pontapear as pedras que me trazem a humidade ao pavimento. Correr para correr, para não morrer abafada debaixo dos cobertores empoeirados.
E o que escrevo sem escrever: o que penso a ser cortado numa ida só, por carros arrogantes.
Os dois pedaços da palavra pensada voltam a reunir-se sem deixar cicatriz.
Devia correr. Devia correr para lá dos limites da falésia, para lá de toda a ressonância da espuma. Correr correr até que o fôlego se pudesse sentar nas ruelas da segurança. Correr para ter um destino. Correr para que me vejam correr sem pontapear as pedras que me trazem a humidade ao pavimento. Correr para correr, para não morrer abafada debaixo dos cobertores empoeirados.
miércoles, marzo 16, 2005
mais uma tarde "antiga"
Mais uma tarde. E nada de mais. Mais uma tarde no meio de muitas tardes, uma luz quase sombria no meio de muitas luzes, no meio de muitos sóis que se puseram, no meio de muitas noites começadas. Mais uma tarde que insiste em não acabar, que se nega a ceder espaço à noite, que se recusa a ser invadida por blocos negros e por ruídos de candeeiros. A invasão de propriedade, a invasão da expulsão de impulsos a ser adiada um pouco mais. O ar da tarde a ser uma camada densa de gelo a tocar o chão, a percorrê-lo todo e a pressioná-lo, tentando abaulá-lo, querendo tomar conta de toda a matéria. E todas as pedras a serem tarde, todos os troncos rachados das árvores a serem tarde, todas as porções de terra e todo o vento que me abana a ser tarde. E a tarde a ser o chão que piso, a tarde a ser as paredes onde me encosto, a tarde a ser todo o ar que me esmaga, a ser a cápsula que me aprisiona. Mas era só uma tarde. Por mais interminável e sufocante que fosse, era só aquilo que sempre fora: uma tarde cumpridora do conceito a que obedece.
domingo, marzo 06, 2005
miércoles, marzo 02, 2005
Queres a verdade?
Quero que gostem de mim para poder não gostar deles.
Aqui tens.
Agora dá-me uma mentira. E é para embrulhar, se faz favor.
Quero que gostem de mim para poder não gostar deles.
Aqui tens.
Agora dá-me uma mentira. E é para embrulhar, se faz favor.
that's why
ávança te trizer que mão.
ávança jogar o jogo ao tio boaneira.
que tal? burro bem?
sim, é um à-morte.
par tece que tammal o disse fazer.
ávança jogar o jogo ao tio boaneira.
que tal? burro bem?
sim, é um à-morte.
par tece que tammal o disse fazer.
aquilo que tu sabes acerca do ponto de vista
Gostava de poder dizer-te tudo aquilo que já sabes.
Enterro-me num sofá de cabedal ruço e espero poder dizer-te tudo aquilo que já ouviste.
desculpa, mas não tenho vergonha de...
Antes que as aspas te ceguem e os assobios te encandeiem, vamos fazer uma última aposta. Quem ganhar entrega as palavras antigas ao perdedor.
Já consigo dizer que horas são em cada fotografia.
Sem quereres, ofereceste-me a desconfiança.
Não me viste hoje. Tentei enganar as estradas com o meu figurino infantil para que me levassem até à Terra do Nunca.
para sempre criança, sem vergonha de...
Não me viste hoje. A sombra de ontem é a morte da luz do amanhã.
Não vou voltar ao declínio da luz; ontem não serei o que fui amanhã.
Óleo sobre tela e pratas douradas.
Tens de ir. Eu percebo, todos nós devemos atender o telefone.
Nas Doroteias ensinavam a fórmula da possessão de fundamento fútil.
Vou cavando túneis na areia da praia branca, enquanto tu gritas para que pare de escrevinhar.
Disse-te que sonhei com a tua unha? Uma unha morta...Eu sei que já ouviste, mas esta noite sonhei com a tua unha morta largada num pedaço de porcelana côncava. Convexa? Côncava! Sim, era esse o meu ponto de vista.
Enterro-me num sofá de cabedal ruço e espero poder dizer-te tudo aquilo que já ouviste.
desculpa, mas não tenho vergonha de...
Antes que as aspas te ceguem e os assobios te encandeiem, vamos fazer uma última aposta. Quem ganhar entrega as palavras antigas ao perdedor.
Já consigo dizer que horas são em cada fotografia.
Sem quereres, ofereceste-me a desconfiança.
Não me viste hoje. Tentei enganar as estradas com o meu figurino infantil para que me levassem até à Terra do Nunca.
para sempre criança, sem vergonha de...
Não me viste hoje. A sombra de ontem é a morte da luz do amanhã.
Não vou voltar ao declínio da luz; ontem não serei o que fui amanhã.
Óleo sobre tela e pratas douradas.
Tens de ir. Eu percebo, todos nós devemos atender o telefone.
Nas Doroteias ensinavam a fórmula da possessão de fundamento fútil.
Vou cavando túneis na areia da praia branca, enquanto tu gritas para que pare de escrevinhar.
Disse-te que sonhei com a tua unha? Uma unha morta...Eu sei que já ouviste, mas esta noite sonhei com a tua unha morta largada num pedaço de porcelana côncava. Convexa? Côncava! Sim, era esse o meu ponto de vista.
lunes, febrero 21, 2005
inundar o mundo todo
Se pudéssemos, eu sei bem que me ajudarias a inundar o mundo todo. Sei bem que te ririas às gargalhadas comido enquanto baloiçávamos no flutuar de um alguidar envelhecido pela sobrevivência.
Quando se fecha os olhos, vêem-se as imagens a correr até ao fim. Vê-se a explosão de riso a existir, vê-se a rapidez da morte de uma corrida, vê-se o afundar dos buracos até à massa viscosa incandescente, ouve-se o desmembramento de todas as feições. Deparamo-nos com a beleza do brilho de uma gota de saliva a brilhar ao sol pendurada numa teia-de-aranha púrpura. Chocam connosco os laivos imundos da desconfiança e do fim do saltar-à-corda quando a corda não completou ainda uma volta.
Quando se fecha os olhos, vêem-se as imagens a correr até ao fim. Vê-se a explosão de riso a existir, vê-se a rapidez da morte de uma corrida, vê-se o afundar dos buracos até à massa viscosa incandescente, ouve-se o desmembramento de todas as feições. Deparamo-nos com a beleza do brilho de uma gota de saliva a brilhar ao sol pendurada numa teia-de-aranha púrpura. Chocam connosco os laivos imundos da desconfiança e do fim do saltar-à-corda quando a corda não completou ainda uma volta.
domingo, febrero 13, 2005
quem nos salva agora, pimpolho?
E tudo isto enquanto o vento
ainda existia, enquanto ainda conseguias espremer uma porção sua com as tuas
mãos de pele áspera.
Mas o vento fugiu.
Numa tarde que me soa a manhã,
segredaram-me ao ouvido que a noite não pode ser vista toda ela de súbito. Só a
podes ir tacteando às partes. Como a morte, ela vem caminhando devagar,
entregando lasca após lasca. Passeias apressado para chegares ao limite das
grades que te abrem o caminho. E os teus poros vão rebentando. Um de cada vez,
cada pequena implosão a ser cada vez menos espaçada, a anterior quase a
misturar-se com a seguinte e quase a parecer uma implosão maior. Resultam delas
efeitos floreados no interior do teu invólucro. Rebentam quando a noite lhes
grita que percam o medo. Se o medo te tentar morder a língua, lambe-o. Fá-lo
implorar pelas tuas manhas.
Fiquei parada a ver o vento evaporar.
Fiquei
parada enquanto a minha pele pingava escoriações, queimaduras e blocos de pus.
Lá em baixo uma poça. Uma poça a engrandecer, a tornar-se notória. Pingas pingas
pingas pingas todas juntas, todas esmagadas e resmungando umas com as outras por
deixarem de ser pingas e serem só uma poça. Uma poça de infecção. O meu corpo a
desfazer-se num espectáculo de auto-destruição indesejada. As tuas mãos ásperas
a estenderem-se para ele, a quererem salvá-lo da liquidificação. Eu parada
ouvindo os estalidos no interior da tua pele. A tua pele não era mais pele e
essas mãos não eram mais ásperas, não eram mais tuas. Os nossos corpos
desfigurados, a desaparecerem e nós a sermos só vontade, a sermos só desejo de
nos salvarmos um ao outro. Mas parados. Entrego-te as correntes do meu olhar por
não poder lançar-te o escadote do meu corpo firme. Tu fazendo talvez o mesmo,
embora eu sem a certeza de o saber.
jueves, febrero 10, 2005
882 73 72 71 já decorei
>sei que não te foste embora, mas foste embora.
>e agora?
>...
>:(
>tenho saudades das noites encandeadas por aquela luz indesejada
>foram só dois dias, dias demais
>com quem falo agora? resta-me uma cabine telefónica e mais de trinta algarismos
>com quem me vou rir depois de levar chapadas?
>a quem vou gatafunhar o peito ao ponto de deixá-lo desenhado de sulcos salientes?
>quem vai insistir para me desenhar um boneco na ponta do nariz?
>que vou fazer com as cartas e as peças de xadrez?
>com quem fujo de casa para me gelar e dizer barbaridades?
>o que faço com todas as letras do abecedário quando quiserem formar palavras significantes?
>já tenho saudades do número 2 e dos cabides, do parquímetro avariado e do Nicoleto
>as sandes mistas vão deixar de ter piada
>vou andar na rua e ninguém vai saber quem sou
>eles não sabem quem eu sou
>mas imagino-te a rir, e rio-me por te ouvir rir dentro das minhas mãos
>imagino-te a cortar o calor com ventos vermelhos que abanas, enquanto eu vou tentando grelhar à frente do aquecedor
>não sei falar mais, não sei como ocupar este tempo
>sabes que horas são? horas de empoleirar no muro ou de ir até à aldeia...
>foste embora, mas continuas a gritar mais alto que qualquer distância.
>como um dia parece um mês, e um mês uma eternidade...
>e agora?
>...
>:(
>tenho saudades das noites encandeadas por aquela luz indesejada
>foram só dois dias, dias demais
>com quem falo agora? resta-me uma cabine telefónica e mais de trinta algarismos
>com quem me vou rir depois de levar chapadas?
>a quem vou gatafunhar o peito ao ponto de deixá-lo desenhado de sulcos salientes?
>quem vai insistir para me desenhar um boneco na ponta do nariz?
>que vou fazer com as cartas e as peças de xadrez?
>com quem fujo de casa para me gelar e dizer barbaridades?
>o que faço com todas as letras do abecedário quando quiserem formar palavras significantes?
>já tenho saudades do número 2 e dos cabides, do parquímetro avariado e do Nicoleto
>as sandes mistas vão deixar de ter piada
>vou andar na rua e ninguém vai saber quem sou
>eles não sabem quem eu sou
>mas imagino-te a rir, e rio-me por te ouvir rir dentro das minhas mãos
>imagino-te a cortar o calor com ventos vermelhos que abanas, enquanto eu vou tentando grelhar à frente do aquecedor
>não sei falar mais, não sei como ocupar este tempo
>sabes que horas são? horas de empoleirar no muro ou de ir até à aldeia...
>foste embora, mas continuas a gritar mais alto que qualquer distância.
>como um dia parece um mês, e um mês uma eternidade...
lunes, enero 31, 2005
estando a n proximidades do momento seguinte
Entrei em casa. Rasguei o corredor, parti-o em dois para ter a certeza que vivo descolada da parede a que me tentam colar. Cada passo era uma proximidade imensa do dilúvio. A proximidade é uma unidade exagerada de medida. Cada passo a poder ser dias e dias e meses de desespero, ao mesmo tempo que cada passo a poder ser uma fracção de segundo. Ainda assim, cada passo a ser apenas uma proximidade demasiado longa. A rapidez do meu andar a ser lenta demais para acompanhar o arranque em velocidade da minha vontade de desistência. A desistência é um suspiro de alívio e um tiro no pé; é uma cabeça apontada para o infinito sem nada para procurar; é o conforto de um sofá mole onde nos enterramos, mas que nos deforma a coluna aos poucos. Três proximidades a tornarem-se duas proximidades, a tornarem-se numa proximidade que se esvazia no acaso de um corpo entubado largado na aspereza dos panos brancos.
Quando dividi o sôfrego do corredor em mim esqueci-me de não rasgar pelo picotado. Esqueci-me que desfazer perfurações se trata apenas de transformar as pequenas perfurações numa só muito grande. Esqueci-me que, quando alguém olhar, vai perceber que a divisão foi tão perfeita que não poderá ser uma real representação da vontade; quem olhar nada mais irá fazer, não vale a pena medir e fazer contas.
Corri no meu passo lento até ao sítio onde as palavras não valem nada, onde não vale a pena tentar dar-lhes forma, pois todas acabam por se entregar ao desmazelo da plasticina. O sítio onde só vale olhar no espelho e materializar a emoção em qualquer espécie de matéria líquida. Cheguei. Fechei a porta à chave. Fecho a porta para que ninguém me veja, para que não tenha de falar a ninguém e, assim, poder construir a experimentação livre. Que raio de experimentação é esta que se repete no resultado? Que liberdade é esta que precisa de enclausura?
Olho o meu olhar reflectido. A linha do meu olhar e a anti-linha do meu reflexo a serem uma só, a serem uma linha com dois sentidos opostos que se encontram num ponto coincidente do espelho. Vejo-me sem ser eu. Olho-me e estou escandalosamente nua, olho-me e sou eu mais do que devia. Já não consigo distinguir-me do meu anti-eu. Somos um só. Fundimo-nos na imensidão da inutilidade, na imensidão devastadora de um labirinto coberto por tecto de amianto. Três proximidades, duas proximidades, uma proximidade a ser proximidade nenhuma entre mim e o eu que me aniquila. Zero proximidades a significarem espaço nenhum de intervalo, a significarem fusão e explosão rápida.
Rápido! Rápido! Antes que percas o teu tempo de pensar...
Quando dividi o sôfrego do corredor em mim esqueci-me de não rasgar pelo picotado. Esqueci-me que desfazer perfurações se trata apenas de transformar as pequenas perfurações numa só muito grande. Esqueci-me que, quando alguém olhar, vai perceber que a divisão foi tão perfeita que não poderá ser uma real representação da vontade; quem olhar nada mais irá fazer, não vale a pena medir e fazer contas.
Corri no meu passo lento até ao sítio onde as palavras não valem nada, onde não vale a pena tentar dar-lhes forma, pois todas acabam por se entregar ao desmazelo da plasticina. O sítio onde só vale olhar no espelho e materializar a emoção em qualquer espécie de matéria líquida. Cheguei. Fechei a porta à chave. Fecho a porta para que ninguém me veja, para que não tenha de falar a ninguém e, assim, poder construir a experimentação livre. Que raio de experimentação é esta que se repete no resultado? Que liberdade é esta que precisa de enclausura?
Olho o meu olhar reflectido. A linha do meu olhar e a anti-linha do meu reflexo a serem uma só, a serem uma linha com dois sentidos opostos que se encontram num ponto coincidente do espelho. Vejo-me sem ser eu. Olho-me e estou escandalosamente nua, olho-me e sou eu mais do que devia. Já não consigo distinguir-me do meu anti-eu. Somos um só. Fundimo-nos na imensidão da inutilidade, na imensidão devastadora de um labirinto coberto por tecto de amianto. Três proximidades, duas proximidades, uma proximidade a ser proximidade nenhuma entre mim e o eu que me aniquila. Zero proximidades a significarem espaço nenhum de intervalo, a significarem fusão e explosão rápida.
Rápido! Rápido! Antes que percas o teu tempo de pensar...
sábado, enero 22, 2005
...e pensar: "eu hei-de amar uma pedra" (vol. 1)
A minha lembrança de ti a bater na minha nuca em estrondos irregulares e compassados. A minha lembrança de ti a ser um vaga de luz no meio do céu da noite dentro do meu cérebro. A ser um desvio à marcha da desgraça, sendo ela a própria desgraça, sendo ela o esmagamento da pessoa que sou hoje, por não ser a pessoa que fui quando tu não eras só uma lembrança. Eras tu palavras, eras tu o meu olhar, tu estavas no meu olhar e cruzavas todas as imagens que invadiam o meu campo de visão.
Eu depois a querer enterrar-te, eu a atirar-te punhados de terra seca, de terra molhada de cloreto de sódio, eu a cair de joelhos, suja, com o suor a escorrer pela testa no esforço de te atirar o enterro com toda a rapidez que conseguia. Eu a querer enterrar-te por tu me teres enterrado há demasiado tempo misturado na mentira. Punhados de terra indiscriminados a irem de encontro ao teu corpo rijo e indiferente. Cansada. Estou exausta do desespero, da necessidade de afastamento indesejado. Recusas-te a ser abafado por torrões silenciosos. Saltas debaixo da terra fúnebre sem que lá tenhas estado. Reapareces sempre para me lembrares o quanto preciso de ti. Para me lembrares que és tão bonito como as danças de fumo com que brincava. Afastas cada grão com um simples abanão e nunca vens sozinho. A tua aparição não é mais solitária. Todas as tuas palavras deixaram de me rasgar sorrisos, deixaram de me fazer sonhar com pedras rolantes num chão de pó encarnado.
A esperança morrer com o morrer da beleza das vespas, a minha esperança morta, devastada pelo teu grito de unhas raspando o metal, toda a minha esperança lançada no asfalto rude e atropelada pelas gargalhadas embriagadas de outros tempos, deixada largada na solidão dos intervalos das pedras da calçada.
De pé, e alta demais para o tamanho do meu cérebro, olho para a calçada, olho para aquilo que foi a minha esperança, olho para um trapo encardido e para a forma carinhosa com que o calcário tenta limpar-lhe as entranhas. Olho para o calor do calcário e penso: “eu hei-de amar uma pedra”.
Eu depois a querer enterrar-te, eu a atirar-te punhados de terra seca, de terra molhada de cloreto de sódio, eu a cair de joelhos, suja, com o suor a escorrer pela testa no esforço de te atirar o enterro com toda a rapidez que conseguia. Eu a querer enterrar-te por tu me teres enterrado há demasiado tempo misturado na mentira. Punhados de terra indiscriminados a irem de encontro ao teu corpo rijo e indiferente. Cansada. Estou exausta do desespero, da necessidade de afastamento indesejado. Recusas-te a ser abafado por torrões silenciosos. Saltas debaixo da terra fúnebre sem que lá tenhas estado. Reapareces sempre para me lembrares o quanto preciso de ti. Para me lembrares que és tão bonito como as danças de fumo com que brincava. Afastas cada grão com um simples abanão e nunca vens sozinho. A tua aparição não é mais solitária. Todas as tuas palavras deixaram de me rasgar sorrisos, deixaram de me fazer sonhar com pedras rolantes num chão de pó encarnado.
A esperança morrer com o morrer da beleza das vespas, a minha esperança morta, devastada pelo teu grito de unhas raspando o metal, toda a minha esperança lançada no asfalto rude e atropelada pelas gargalhadas embriagadas de outros tempos, deixada largada na solidão dos intervalos das pedras da calçada.
De pé, e alta demais para o tamanho do meu cérebro, olho para a calçada, olho para aquilo que foi a minha esperança, olho para um trapo encardido e para a forma carinhosa com que o calcário tenta limpar-lhe as entranhas. Olho para o calor do calcário e penso: “eu hei-de amar uma pedra”.
viernes, enero 21, 2005
"time stops" (vol. 2)
O tempo pára por momentos, eu movimento-me numa velocidade desesperada, numa maré de sorrisos e saltinhos arriscados. Depois, o tempo acorda, avança para a minha frente e ri-se de mim, ri-se da queda que me provocou, ri-se dos meus joelhos esfolados. Olho-o. O tempo corre, mas segue olhando para mim, de costas para o caminho, olha-me nos olhos para me dizer que sou alta demais para o tamanho do meu cérebro, para me dizer que sou mais pequena que todos eles que admiro (eles, sabes?). Sento-me nos bancos em que nos sentámos a contar histórias numa noite perdida, olho as sombras do banco a invadir o escuro do céu da noite, a invadir as nossas vozes trémulas e tão felizes. Sento-me. Eu parada e o tempo a andar. Eu ali sozinha a poder vê-lo num todo que me incomoda. A ver os interiores do tempo, do meu tempo dentro do tempo, da minha felicidade dentro dele, do meu medo de ser feliz. E o tempo pára para me olhar fixamente. Penetra em mim como uma faca afiada a trespassar os músculos moles, a esmagá-los todos, a fazer neles um buraco que não sara. A atirar-me contra o estômago pedras, e essas pedras a serem os meus medos todos juntos, a serem tudo aquilo por que não arrisquei; essas pedras a serem a morte vadia da minha esperança, a serem a mais violenta mutilação dentro dela. E ela, a minha esperança, a ser assim até hoje: a ser assim esburaca, a ser feia e incompleta, a ser um pedaço velho de lembranças mergulhadas em sangue.
Mas pelo menos ainda existem aqueles bancos, ainda estão lá para me fazer sorrir quando eu finjo viver num tempo que já passou há excessivas horas.
obrigado cláudia pela inspiração da foto :)


